quinta-feira, 10 de março de 2011

O som das vozes

Em uma madrugada destas, a alguns dias atrás, eu estava orando. Foi um daqueles momentos em que a oração deixa o seu curso natural, passando a se manifestar em gemidos e sons que não são habituais; que parecem não ter sentido. Na verdade, o nível de quebrantamento subiu bastante, me transportando a um plano de rendição incomum.

Naquele instante, o meu espírito sentiu-se incapaz de proferir as palavras apropriadas - aquelas que precisavam ser ditas, sem rodeios. Palavras que pudessem traduzir o sentir do meu espírito. Não sei explicar muito bem; mas eu tinha a certeza que aquela oração não deveria ser conduzida pela razão, ou ditada pela alma. Deveria ser uma oração capaz de se comunicar na dimensão do sobrenatural.

Sem conseguir o que pretendia; abatido por ser tão limitado, ouvi a voz do Senhor falando ao meu espírito: "Balbucie qualquer som; mesmo um som que não tenha sentido ao teu raciocínio. Eu saberei entender". Então o Senhor me disse:

Eu conheço o som das vozes

"Eu ouço e conheço a voz do bambuzal, quando o vento faz vibrar suas hastes. Também entendo a voz das grandes rochas, quando o vento se espreme entre suas fendas. Ouço e compreendo a voz das grandes feras, quando emitem o seu rugido assustador. E a voz dos pássaros chega até mim, através do seu canto e seus ruídos. Eu conheço o som das vozes.

O desejo de um bebê chega até mim, quando balbucia palavras que ninguém consegue decifrar. E a voz do pensamento é clara aos meus ouvidos, quando alguém grita e canta em seu íntimo. Ouço a voz da tempestade, quando o ribombar de seus trovões me dizem o que pretendem. Eu conheço e sou capaz de decifrar o som das vozes.

Portanto, filho meu: Diga qualquer coisa, em qualquer língua - ou em língua alguma, que saberei entender. E na falta de uma língua, crie outra qualquer; eu saberei entender tua oração. Não há gemido ou grito incontido que eu não seja capaz de entender. Um gemido inexprimível chega até mim, como frase bem formulada. Eu te digo: Balbucie qualquer coisa! Pronuncie qualquer voz; suspire ou libere gemidos... Eu saberei o que queres dizer. Não te preocupes com o som, por mais estranho que pareça ser - nem com a aparente insensatez desse som. Fale, grite, invente palavras. Não te preocupes com o som dos teus murmúrios. Eu sou aquele que conhece o som das vozes".

Ouvi tudo isso e chorei. Chorei e fiz o que é certo - mesmo parecendo loucura. Sim! Não estranhei nem me preocupei com os sons que pronunciei. Naquele momento glorioso eu estava, prostrado e pequeno, aos pés do Deus eterno, que tudo sabe - que conhece o som das vozes.

Cordialmente;
Bispo Calegari

Um comentário:

  1. As palavras são pequenas diante de tamanha Riqueza de Deus aos nossos corações... Simplesmente inspirador... Deus o abençoe sempre!

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