quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Entendendo melhor as festas cristãs

Ontem postei em minha página no facebook, uma reflexão sobre a importância do Natal - não pela festa em si mesma - mas, pelo que ela representa para todos aqueles que tem fé em Jesus. Logo após ter postado esta palavra, entendi que deveria estendê-la ao meu blog. É o que faço agora.

Realmente, não há como negar o sentimento diferenciado que nos afeta durante a quadra do Natal. E este sentimento não é causado pelo exaustivo papel da Mídia - antes e durante os festejos natalinos. Também não é causado pela atuação do mercado - explorando a tendência de consumismo que se manifesta em ocasiões como esta. Também não vejo este sentimento derivar da conotação religiosa que parece potencializar tão especial ocasião. Inclusive, penso exatamente o contrário: Vejo toda esta movimentação secular e religiosa, como efeito e não causa, do sentimento que o Natal provoca.

Festas na Antiga Aliança

Na verdade, sem querer ser dogmático, sinto que Deus tem prazer em tais celebrações por parte do Seu povo. No passado, em pleno deserto de Sinai, em seus pronunciamentos a Moisés, vemos o Deus eterno organizando, em forma de leis, o calendário das festas judaicas.

Após ter libertado o Seu povo do cativeiro no Egito, determinou que o Seu povo jamais se esquecesse desse dia, celebrando-o com festa perpetuamente: "E este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao SENHOR; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo" (Êxodo 12:14).

Ao se dirigir a Moisés, no livro de Êxodo, Deus faz menção de três festas especiais: "Três vezes no ano me celebrareis festa" (Êxodo 23.14) - chamando a atenção de Moisés para a importância delas na Antiga Aliança: 1. A Festa dos Pães Ázimos. "A festa dos pães ázimos guardarás; sete dias comerás pães ázimos, como te tenho ordenado, ao tempo apontado do mês de Abibe; porque no mês de Abibe saíste do Egito" (êxodo 34.18). 2. A Festa das Semanas. 3. A festa da colheita. "Também guardarás a festa das semanas, que é a festa das primícias da sega do trigo, e a festa da colheita no fim do ano" (êxodo 34.22).

É bem verdade que o sentido original destas festas foi deturpado pelos seus promotores. O comércio exacerbado que se movia em torno delas, impunha gastos supérfluos sobre os celebrantes; descaracterizando o verdadeiro objetivo das mesmas. Entretanto, haviam inúmeros israelitas que faziam sua celebração com sentimento de temor e devoção.

Festas na Nova Aliança

Com exceção da festa do batismo e da festa da santa ceia, não temos um calendário bíblico definido de festas cristãs. Todavia, isso não significa necessariamente que as mesmas não possam ser feitas; ou, que sejam erradas em si mesmas. Sabemos que o contexto em que a "Lei de Deus" foi legada ao povo de Israel é bem diferente do contexto em que o NT foi escrito.

Não vejo como algo errado e anti-bíblico, a celebração de uma festa por ocasião da data aceita por uma grande maioria - como a data do Natal (o nascimento do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo); ou, como a data da Paixão (a morte do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo); ou, ainda, a data da Páscoa (a ressurreição do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo). Até porque, o fato de serem festas extra-bíblicas não significa que sejam festas anti-bíblicas. E duvido muito que alguém possa me convencer do contrário!

As duas Alianças são distintas

Sempre examinei com lamento os movimentos cristãos judaizantes nos dias da Igreja Primitiva. Tenho atribuido tais desvios, à falta de normativas para a Igreja; as quais vieram através dos escritos do Apóstolo Paulo. Em sua batalha apologética, Paulo questiona a mudança de atitude dos cristãos da Galácia: "Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne? Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão. Aquele, pois, que vos dá o Espírito, e que opera maravilhas entre vós, fá-lo pelas obras da lei, ou pela pregação da fé?" (Gálatas 3.2-5).

É curioso observarmos que, logo após o trabalho evangelistico de Paulo entre os gentios, alguns cristãos judaizantes foram tentar desencaminhar os novos crentes: "Então alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos. Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda contra eles, resolveu-se que Paulo e Barnabé, e alguns dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão" (Atos 15.1-2). 

O próprio Pedro, que pregava o evangelho da circuncisão, saiu em defesa de Paulo: "E, havendo grande contenda, levantou-se Pedro e disse-lhes: Homens irmãos, bem sabeis que já há muito tempo Deus me elegeu dentre nós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem. E Deus, que conhece os corações, lhes deu testemunho, dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós; E não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé. Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar?" (Atos 15.7-10).
Todavia, ao final daquela assembléia, o próprio Tiago - que a presidia -  põe um ponto final à polêmica: "Porquanto ouvimos que alguns que saíram dentre nós vos perturbaram com palavras, e transtornaram as vossas almas, dizendo que deveis circuncidar-vos e guardar a lei, não lhes tendo nós dado mandamento, Pareceu-nos bem, reunidos concordemente, eleger alguns homens e enviá-los com os nossos amados Barnabé e Paulo, Homens que já expuseram as suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Enviamos, portanto, Judas e Silas, os quais por palavra vos anunciarão também as mesmas coisas. Na verdade pareceu bem ao Espírito Santo e a nós, não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes. Bem vos vá" (Atos 15.24-29).

Cristãos judaizantes agindo nos dias de hoje

Até entendo a confusão que os cristãos judaizantes dos dias primitivos faziam, por não terem ainda parâmetros definidos, sobre as diferenças entres as Alianças. Todavia, como entender a tentativa de cristãos judaizantes dos nossos dias; em tentar impor preceitos judaicos aos cristãos gentios, em flagrande desacordo com os escritos de Paulo?

Estou ciente de que as verdades da Nova Aliança podem e devem ser abraçadas pelos judeus. Até porque, as promessas nela contidas - pertencem tanto aos cristãos judeus, quanto aos cristãos gentios. Portanto, cada um destes grupos podem viver o evangelho de Cristo em suas próprias culturas e tradições biblicamente aceitáveis, se assim o desejarem.

No entanto, a ação sistemática de movimentos cristãos judaizantes de hoje, tentando desqualificar a liberdade cristã gentílica (liberdade esta - dos costumes e tradições judaicas - defendida por Jesus e promulgada por Paulo) é uma clara violação das Escrituras sagradas do NT. O Apóstolo Paulo, em suas epístolas, deixa bem claro que as verdades das duas Alianças tem objetivo distinto. São verdades que não devem ser misturadas, ainda que afins. As verdades da Nova Aliança complementam as verdades da Antiga Aliança, sem serem à ela encabrestadas.

Sei perfeitamente que algumas tradições incorporadas às festas cristãs estão eivadas de erros e grosseria. Portanto, devem ser rejeitadas! Mas, assim como os desvios de finalidade não invalidaram o sentido sagrado e devocional das celebrações judaicas - entendo que os desvios existentes em muitas formas de se festejar algumas datas cristãs não invalida o seu sentido devocional.

Só para concluir

Durante minha vida cristã, tenho andado com Deus tempo suficiente, para saber que existe uma relação de graça e mistério em algumas datas comemoradas na Nova Aliança. É triste vermos algumas idéias e ações intolerantes tentando desqualificar ou diminuir a importância destas datas sagradas. Ainda bem que este tipo de extremismo é pequeno em meio a força da fé cristã. Sei que, a primeira vista, parecem sensatas suas manifestações contrárias. Todavia, o mundo seria um lugar muito mais infeliz e triste sem estas celebrações. Disso tenho absoluta certeza!

Cordialmente;
Bispo Calegari


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