domingo, 6 de fevereiro de 2011

Solidão - o que é isso?

"Eis que vem a hora, e já é chegada, em que vós sereis dispersos cada um para o seu lado, e me deixareis só; mas não estou só, porque o Pai está comigo" (João 16.32).

Creio ter sido este um dos momentos mais angustiantes da vida e do ministério do Senhor jesus. Aquele grupo vivera, por cerca de três anos, intensa de vida comunitária. Nesse período, foram muitas as ministrações; viagens constantes; inúmeros casos de vidas libertas e curadas. A popularidade do grupo, devido a presença de Jesus, fora crescente; especialmente entre os mais humildes e sofredores. Multidões se "acotovelavam" em volta do grupo. Também viveram momentos de perseguição; de afronta; de inúmeras tentações.

E agora, naquele cenáculo tosco, o grupo reunido em torno de Jesus ouvia aquele que, talvez, fosse o mais profundo sermão proferido pelo Mestre. Nele, o Senhor fala sobre diversos assuntos. Os discípulos atentos ouviam sobre perseguição, solidão, missão; ouviam também sobre promessas, presença, poder... E, antes de iniciar a "oração final", Jesus os incentiva a seguirem em frente: "Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo" (João 16.33).

Ao longo de meus 43 anos de ministério, tenho me debruçado sobre este texto inúmeras vezes. E nesta manhã, ao examiná-lo novamente, sou assaltado por três perguntas:

O que é a solidão?

Se formos nos basear no "Aurélio", podemos chegar às seguintes conclusões: Solidão é o estado em que se encontra quem vive só; em isolamento. O termo também se aplica a lugar ermo e despovoado. No "Aurélio", admite-se também o estado de solidão mesmo entre pessoas: como alguém em um internato, cercado de gente, mas sentindo-se só. Ou mesmo a "solidão a dois": Que é o estado em que alguns casais se encontram; os quais, mesmo vivendo juntos, acabam por se sentirem sós; por não haver entre eles nenhum entendimento.

Todavia, a solidão é um fenômento que vai além das definições possíveis. O sentimento provocado por ela, além de contraditório, pode tornar-se perigoso. Temos visto casos de pessoas que, dominadas por um sentimento de solidão, acabam por dar cabo da própria vida. E em muitos desses casos, a realidade comprovou que os suicidas sempre estiveram cercados de pessoas atenciosas e preocupadas consigo.

Devido a casos assim, podemos deduzir que a solidão pode ser uma "força" que nos aprisiona por dentro. Um sentimento capaz de isolar alguém dentro de si mesmo; a ponto de leva-lo a ir, aos poucos, perdendo o contato com o mundo de relacionamentos que ele tem a sua volta, incluindo os seus entes queridos e seus amigos mais chegados.

Existe também a solidão no meio da multidão. São aqueles que caminham entre centenas; que convivem com muitas pessoas em seu local de trabalho; que vivem cercados de vizinhos bem próximos. Todavia, não conseguem estabelecer pontes de comunicação com aquele "mundão de gente" à sua volta, com o qual vive em constante contato.

Como detectar a "presença" da solidão?

A solidão, mesmo que não possa ser percebida no início, acabará por ser notada, na medida em que for evoluindo. Primeiramente os familiares e por fim amigos mais chegados - todos irão notar aquele, dentre eles, que foi se isolando. Ela não consegue se ocultar por muito tempo - mesmo camuflada por um sorriso descontraído ou por conversas frequentes. Se formos atentos, iremos notá-la nos momentos "pré e pós" descontração e interação; quando ela não pode se esconder.

A solidão sempre deixa alguns indícios de sua presença na vida de suas vítimas. Podemos constatar isso, especialmente no ambiente da família ou no ambiente da igreja. Infelizmente, detectar a solidão na vida de alguém é muito mais simples do que encontrar a solução para este mal tão comum em nossos dias.

Muitas vezes, acabamos por contribuir para o agravamento do estado de solidão de alguém; e isso, pelo simples fato de não sabermos como interagir com a vítima da solidão. Quantas vezes nos afastamos gradativamente de uma pessoa, tão somente por não conseguirmos encontrar meios estabelecer comunicação com ela.

Afinal, quando é que vivemos em solidão?

Em primeiro lugar, vivemos em solidão quando nos sentimos em solidão! A causa primária da solidão se manifesta dentro de nós mesmos. E alguns sentimentos que acalentamos em nosso íntimo, acabam por gerar e alimentar a solidão que nos consome. Quando começamos a achar que ninguém nos ama - que ninguém nos dá atenção. Enfim, quando nos deixamos dominar por aquelas queixas subjetivas contra o nosso próximo, a solidão tem o seu terreno preparado para exercer domínio e posse.

E o mais lamentável em tudo isso é que, na grande maioria das vezes, o nosso próximo nem chega a se dar conta de que atribuímos a ele a culpa do nosso drama. Muitas vezes, uma desatenção involuntária ou um semblante tenso de alguém que amamos, podem ser entendidos por nós como um sinal de que já não somos amados ou valorizados; e aí por diante.

Não creio que o sentimento daquele que se sente prejudicado por nosso aparente descaso, nos torne, de fato, culpados por sua solidão. Se formos estabelecer uma relação de causa e efeito, podemos ter a certeza de que o motivo que leva alguém nesse estado a nos atribuir alguma culpa, é apenas o efeito - um dos sintomas de uma enfermidade, cujas causas estão aprofundadas no íntimo do ser.

Entretanto, penso que nos tornamos responsáveis pelo prolongamento da dor de alguém, quando deixamos de colaborar. Entre nossos parentes e amigos, precisamos dar atenção especial àqueles que parecem ter algum tipo de problema. Devemos procurar ser especialmente atenciosos e gentis com os que estão em crise. Geralmente, não fazemos ideia do bem que um cumprimento alegre e um sorriso, podem fazer a determinadas pessoas. E não custa nada sorrir! Nas lutas do nosso próximo, nem sempre somos culpados; mas sempre somos responsáveis.

Na próxima postagem sobre este tema, finalizaremos com um remédio infalível para este mal.

Cordialmente;
bispo Calegari

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