sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Eu Orei por ti

"(31) Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo; (32) mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece teus irmãos. (33) Respondeu-lhe Pedro: Senhor, estou pronto a ir contigo tanto para a prisão como para a morte. (34) Tornou-lhe Jesus: Digo-te, Pedro, que não cantará hoje o galo antes que três vezes tenhas negado que me conheces" (Lucas 22.31-34).

Quando vislumbramos o contexto do cenáculo, não somos capazes de discernir plenamente a dor que se manifestava naquele lugar; que marcava aquele momento. Quando me volto para aquela cena, posso ouvir o longo suspiro do Messias. A dor da missão para a qual viera ao mundo era sintetizada naquele momento. A festa que não era festa, estava seguindo o seu curso. A mesa tosca era ocupada por pão e pelo vinho. Se haviam outros componentes, tais como os que os judeus utilizavam por ocasião da Páscoa, eu não consigo ver, Mas Jesus lá estava! E seus discípulos também; inclusive aquele cujo coração já não lhe cabia; já não lhe pertencia.

Pedro também estava lá. Ele não estaria ao seu lado durante o seu julgamento. Mas ele estava ali no Cenáculo! Ele não estaria ao seu lado, em meio ao tumulto popular. Mas ele ali estava, bem próximo do Mestre! Ele não estaria ao seu lado, para fazer o que Simão Cireneu teve que fazer por constrangimento. Todavia, ele estava no Cenáculo! E as palavras que ele estava prestes a ouvir do Mestre, iriam ressoar em seus ouvidos durante toda a vida que ainda viveria sobre a face da terra. Palavras que revelavam algo que estava prestes a acontecer. Palavra que soavam, não como julgamento ou como censura; e sim, como compaixão.

As palavras ditas por Jesus a Pedro, tinham como objetivo revelar uma verdade que se sobreporia ao seu drama pessoal. Enfim, elas não evitariam o efeito de um descuido espiritual; mas impediriam a ruína do candidato a apóstolo.

Uma batalha conhecida

Todo o líder espiritual, assim como o crente conhecedor das Escrituras, sabe que é um alvo dos ataques de Satanás. A Palavra de Deus está pontilhada de advertências quanto a estes ataques. Na epístola aos Efésios, somos exortados a utilizar as armas certas para este combate: "Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça, e calçando os pés com a preparação do evangelho da paz; tomando, sobretudo, o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus" (Efésios 6.14-17). Resumindo: Não temos como evitar estes ataques; mas temos como nos preparar para enfrentá-los.

Neste texto, aprendemos que "a nossa luta não é contra carne e sangue, mas sim contra os principados, contra as potestades, conta os príncipes do mundo destas trevas, contra as hostes espirituais da iniquidade nas regiões celestes" (Efésios 6.12). Nele, somos também encorajados a nos fortalecermos no Senhor e a permanecermos firmes; mas sempre revestidos de toda a Sua armadura.

Eu Roguei Por Ti

Entretanto, tenho a impressão que a grande maioria dos líderes espirituais desconhece o fato de que alguns ataques desferidos contra eles não são triviais. Pastores e obreiros podem ser atingidos por golpes sucessivos, capazes de minar sua resistência. É como se, num ringue, um dos lutadores fosse golpeado sucessivamente no fígado pelo seu oponente; ou mesmo em um determinado olho. Um desses golpes seria insuficiente para levá-lo a lona; todavia, uma sucessão de golpes pode reduzir a capacidade de combate; pode minar as forças gradativamente.

Pedro era um guerreiro. Um combatente da causa do Mestre, ousado e destemido. Mas não estava preparado para o que viria em seguida. Tivera seus momentos de deslumbramento com o sucesso do trabalho (milhares de pessoas milagrosamente alimentadas; milagrosamente curadas). Mas alguns golpes também estavam sendo desferidos sem que ele se apercebesse disso. E naquele momento de aparente segurança e tranquilidade, Jesus o adverte: "Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo" (Lucas 22.31).

O experiente Simão - o mais velho do grupo - nem imaginava o que estava prestes a fazer. Todavia, se ele tivesse dado ouvidos a esta advertência, teria percebido as nuvens sombrias no horizonte. Enfim, o prenúncio de tempestade a vista seria suficiente para alertar suas defesas. Mas, pode ser que suas defesas estivessem desativadas; que suas armas estivessem fora do seu alcance. Percebemos neste texto, que Pedro fora avisado, contudo, fora pego desprevenido.

Bem-vinda seja a intercessão! Bendita seja a intercessão! Jesus sabe tudo sobre a fragilidade da natureza humana. Mesmo nos mais experientes e dedicados homens de Deus, Ele vê fragilidade. Costumo dizer que meus heróis estão mortos. E digo isso, porque o Reino de Deus não possui heróis vivos. Na "galeria dos heróis da fé" registrada em Hebreus cap. 11, não encontramos menção de um só nome dentre os líderes da Igreja Primitiva; nem mesmo o do Apóstolo Paulo - o grande combatente das missões pioneiras. No Reino de Deus, os verdadeiros heróis estão entre aqueles que já não moram mais aqui.

Como não existem heróis vivos neste glorioso Reino; nós, os líderes espirituais, sempre corremos o risco de perder uma batalha; ou até mesmo a guerra. Se este risco não fosse real, não haveria necessidade de tantos sinais de alerta nas Escrituras. Ocorre que, mesmo não perdendo a guerra, uma batalha perdida pode consumir valores arduamente conquistados. Batalhas perdidas podem nos despojar de bens que Deus colocou em nossas mãos; batalhas perdidas podem arruinar a nossa família; batalhas perdidas podem comprometer seriamente o nosso ministério.

Daí a necessidade que o Senhor Jesus teve de interceder por Pedro: "Mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece teus irmãos" (Lucas 22.32). Naquela intercessão, Jesus garantira a Pedro aquele "minutinho a mais" no combate que travava, para que ele se recompusesse e vencesse a luta. "Eu roguei por ti"!

Sinto agora o desejo de concluir esta reflexão com um cântico que julgo bem apropriado para este momento:

"Quando tudo diz que não, Sua voz me encoraja a prosseguir;
Quando tudo diz que não, ou parece que o mar não vai se abrir;
Sei que não estou só e o que dizes sobre mim não pode se frustrar.
Venha em eu favor e cumpra em mim Teu querer!

O Deus do impossível não desistiu de mim;
Sua destra me sustenta e me faz prevalecer!
O Deus do impossível não desistiu de mim;
Sua destra me sustenta e me faz prevalecer!
O Deus do Impossível."

Cordialmente;
Bispo Calegari

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